segunda-feira, 18 de maio de 2009

Balzaquianas

Eu acordei hoje lembrando da minha mãe. De como eu queria ser igual à ela quando crescesse. Os cabelos meio ondulados, aquelas unhas vermelhas, o cigarro, ahh, o cigarro e muitos anos a mais que dão um ar sensual a qualquer mulher. Queria ser igual, porque dali, a vida dela parecia lógica, fácil, quase alegre demais. “Quando você tiver a minha idade, vai querer voltar a ser criança, você vai ver”. É mamãe, você tinha razão, aliás, não sei por que não te ouço quase nunca, você sempre tem razão.

Faltam uns quatro pulinhos para eu virar uma balzaquiana e isso me apavora por demais. Com essa idade, minha mãe tinha duas filhas, era casada, tinha uma profissão estável, tinha casa própria e aquelas unhas vermelhas. Eu? Bem, melhor não falar sobre isso. Melhor não falar sobre aquilo que você ama demais, mas não tem certeza, não tem direção. Ou então, melhor não falar sobre aquilo que é certo demais e te choca, porque você queria um incerto prá te cutucar durante a noite.

Eu pensava que quando tivesse lá meus muitos anos, a vida seia mais fácil, afinal, a minha tenra idade era difícil prá caramba. Ser filha de pais separados, morar em outra cidade e ligar de vez em quando prá mãe prá dizer que tudo ia bem e que eu estava mesmo virando uma mocinha, quando na verdade, a minha vontade era de continuar criança. A minha mãe era uma sábia, ela já previa o futuro.

E desde aquela época eu pensava que ser grande era só sair para trabalhar e poder chegar em casa a hora que quisesse. Mas eu descobri que ser grande, é não dormir de bichinho de pelúcia, é não comer doce porque engorda, é não chorar em qualquer lugar quando der vontade, é não ficar com quem se ama porque a vida escolheu assim, é não acreditar em conto de fadas e ainda assim, continuar sorrindo. Daqui a pouco vou ter que doar o meu urso Bruno prá alguém, porque aquilo tá cada vez mais ridículo. E pior, ele já está tão velho que deve estar cansado de dormir agrrado no meu peito por anos, aguentando meus sonhos inventados e meu choro silencioso, às vezes, sem lágrima nenhuma.

Vou ter que aposentar ele, guardar no funo do meu armário, porque os quatro pulinhos estão bem perto. Eu nem posso brincar de inventar sonho, prever o futuro, porque no meu mar, não há terra à vista. Pelo menos por enquanto, acho que vou ter que remar mais um pouco. Mas eu decidi, vou ser uma balzaquiana bem bacana quando passarem esses quatro pulinhos, vou pintar as unhas de vermelho, porque odeio cigarro, homens estão quase extintos, crianças são caras e estamos vivendo uma grande crise. Eu só não sei qual é maior: a de dentro ou a de fora...

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Lépida

E eu pequena, ouço a voz do mundo me chamar.
Ele é tão vasto, eu tão dividida.
Não tenho medo, tenho asas escondidas.
Lá no alto eu vou voar, basta o encanto me guiar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Talvez

Talvez você morra de vontade de gritar e ir embora prá longe.
Talvez você vá embora prá uma terra distante e veja que precisa voltar.
Talvez você resolva dar a volta no seu mundinho particular.
Talvez você descubra que o mundinho mudou. Mudou tanto, tanto, que você nem se reconhece mais a ponto de perguntar: “Sou eu mesmo, ali no espelho?”
Talvez você admire estrelas e goste de mar.
Talvez você sente, espere, sorria, coma, brinque, cante, e mesmo assim, nada mude.
Talvez você tenha que se desfazer de algo para ser feliz.
Talvez você não tenha saída, se sinta solitário e se torne rude.
Talvez você não esteja fazendo nada numa tarde de domingo e se dê conta de que o tempo passou.
Talvez você vire omeletes no ar.
Talvez você se decepcione com alguém que ama muito a ponto de não ver mais graça no luar.
Talvez você sorria e perceba que a vida devolve aquilo que escolhemos.
Talvez você tenha que abrir mão, pois cansou de acreditar.
Talvez você tenha que contar até 200 para não perder a paciência.
Talvez seja impossível recomeçar.
Talvez você goste de ver filmes antigos na televisão e chore no final.
Talvez você olhe nos olhos daquela pessoa e descubra que nada no mundo vai ser igual.
Talvez você seja tão bravo como um leão.
Talvez você passe na rua e sinta aquele perfume tão familiar.
Talvez você ouça de menos e fale de montão.
Mas uma coisa é certa... Vista a armadura e vá batalhar.
Mas no fim, saiba para onde voltar.

Ele não está tão a fim de você e nem de ninguém

Agora vai ser essa merda todo dia. Eu vou pensar nisso agora até conseguir entender de vez. Eu sei. Eu conheço a vida, aliás, cada dia conheço mais da vida. O negócio talvez é não ter um tipo, as pessoas que não tem tipo são mais felizes. Ou, talvez, o negócio é achar o mundo inteiro interessante, mas isso, se alguém me ensinar ganha o Nobel da Matemática: eu (sozinha, linda, inteligente, cheirosa, mandona...) + você (qualquer tipo) = casal perfeito de contos de fada. Ou, o negócio é dar a cara à tapa mesmo. Se bem, que minha cara anda tão roxa que até ela se recuperar, acho melhor eu ir devagar. O negócio gente, é ir procurando, deve estar em algum canto, deve estar debaixo do sofá, olha lá.
Deve estar perdido dentro da gaveta, olha. Ou então, perdido dentro de algum bolso, ou talvez caiu do bolso. Quem sabe. Aqui, pode também ter sido esquecido na casa de alguém e você nunca voltou prá buscar. Só sei, que vai aparecer, mais cedo ou mais tarde. Vai tateando, do seu jeito, porque são muitos os jeitos sabe. Tem aquela que vai experimentando tudo que vê pela frente sem pedir nome, telefone ou grupo sanguíneo. E acaba achando metade do mundo um caso em potencial. Tem aquele que acha que mulher é descartável, umas boas, outras ruins, mas tudo muito comestível.
Esse aí nunca vai ter intimidade na vida, na verdade, ele vive num mundo onde não existe essa palavra no dicionário. Tem aqueles que namoram, apenas para terem o título, mesmo porque isso dá um ibope maior que o da novela das 8h (na verdade é das 9h) quando Gianechini aparece chorando. Tem aquela que acredita demais no amor e acha que ele tem que vir à cavalo. Muitas, como ela, acabam esperando o príncipe a vida inteira e ninguém conta que por aí tem um bando de lobo mal bom prá caramba. Tem aquele que é apaixonado por uma mulher, mas insiste em ficar com o resto do mundo para se punir. Coisa de gente louca e egocêntrica. Tem muita gente por aí... Um troca-troca que deixaria Sodoma e Gomorra com inveja. Não acho nada errado, mas me dou o direito de achar algumas coisas certas. Pelo menos até que minha analista me interne. (Eu não tenho analista, mas acho muito chique quem tem).
Eu passo por ridícula, eu choro com minha mãe no telefone, eu escrevo poemas, eu acredito em promessas, eu procuro nas esquinas, nos bares, nas filas do cinema, nos restaurantes e até nos meus sonhos. Não fico mal, eu só não fico, mas mesmo assim, sigo em frente. Ficar sozinha tem a vantagem de trazer à tona verdades que ficam quietinhas dentro da gente. Ficar sozinha tem a vantagem de se ouvir apenas a voz que sai de você mesmo. Sei que não há lágrima, dor, grito, angústia, raiva, decepção, em vão. Isso também faz parte do seguir em frente. E não importa muito bem como, basta seguir.
Acho que a vida vai se encarregando de fazer as coisas acontecerem lá fora, quando a gente faz acontecer aqui dentro. Tem gente que faz acontecer no silêncio, tem gente que faz acontecer no meio de amigos, tem gente que só faz acontecer com um porre, ou às vezes, tem gente que faz acontecer nos braços de outro alguém. Mas isso também não importa. Como disse, o importante é seguir em frente e parar de se iludir. Pois bem, falei isso tudo aqui para enfim dizer que depois de assistir ao filme Ele não está tão a fim de você, sou uma nova mulher. Apesar de estar cansada de saber que muitos homens não estão nem aí, que adoram dar desculpa e tudo mais que cabe nesse repertório masculino, é bom aprendermos que existem caras que simplesmente não estão a fim, nem de você, nem de ninguém no mundo, nem da Giselle, nem da Melancia. Existe alguém por aí para cada um de nós, nisso eu acredito, mas eu acredito também que temos que parar de idealizar e de acreditar que temos que aguentar tudo.
O filme, de uma maneira bem humorada, mostra que desde a infância, nós mulheres aprendemos que quando um homem nos humilha, na verdade é porque nos ama muito, e, entre outras coisas, não consegue lidar com seus sentimentos. Pura bobagem, mas ainda tem mulheres que acreditam nisso. Atire a primeira pedra quem nunca disse à amiga: “Calma, ele não te merece”. “Ele vai ligar, deve ter perdido seu número”, ou “Ele deve estar com algum problema sério”, essa última é ótima. É meninas, muitas vezes o problema é deles mesmo, mas nem sempre. Mas isso só aprendemos com anos de foras e de experiências.
Quem nunca levou um fora não é? Sinceramente, um homem não precisa ser lembrado que é amado o dia inteiro para lhe dar valor. Na verdade, acho que precisamos aprender que o homem que precisa disso não merece nem o nosso amor, nem o de mulher nenhuma. Faça como eu, comece a olhar para o lado, mas não vá pulando no primeiro que aparecer. Não vale se desesperar (quer dizer, só um pouco, mas seja breve), um dia vai aparecer alguém, ou, para a sua sorte, um dia, alguém não vai desaparecer sem ao menos dizer tchau.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um gole

Eu não sei por que insistir em algo há tanto tempo desgastado. Pior, algo que não existe na superfície e precisa ser desenterrado lá do fundo. E eu no fundo, um frio, um vazio, uma espera de algo que talvez não venha. De algo que mora no silêncio, nas palavras escolhidas, nos olhares distantes, na boca úmida que quer se entregar, mas espera, ávida.

Eu queria receber outra mão, uma mão diferente, leve como pluma, a pousar na minha cabeça, a me pedir um afago, um carinho, a suplicar, ordenar. Porque a outra mão sabe que estou desacostumada, ou que tocá-la seria o mesmo que trair, cometer um pecado. Eu queria receber a outra mão suavemente a tocar meu rosto. E queria receber isso sem me assustar, sem ter um soluço prá dentro a gritar que aquilo não vai durar.

E, por alguma razão, o meu sorriso precisa de um gole de vinho, um gole de alguma coisa que me leve prá algum lugar que não é estar ao seu lado e que eu não precise usar máscara. Máscara nenhuma. Que eu possa acariciar alguém sem me matar em seguida. Sem estar num lugar cheio de gente e me sentir sozinha, desamparada, apagada, meio bege, quase um fantasma a flutuar entre as pessoas.

Não o medo de me embriagar, porque só me embriagando vou gostar dele como se deveria gostar de alguém. Mas o eterno medo de cair de mim mesma. Eu não consigo amá-lo e o meu coração quase sai pela boca a me falar algumas verdades. E quando eu não consigo, ou eu finjo que posso, eu fico quase uns 10 minutos sem pensar no que é amor de verdade, sentimento de verdade. Eu nunca sei o que sobra de mim, por vezes, eu acho que não sobra nada. E quando eu sorrio, assim como sorriem as pessoas que são felizes, eu deixo essas sobras caírem um pouco e o mundo não recebe isso bem.

Isso não é feito prá dar certo, já haviam me dito isso. Amor não é feito prá dar certo. Por isso, insisto naquilo que deveria ser amor, mas não é. Finjo a felicidade, eu me obrigo a finjir que aquilo é um pedaço de vida, um pedaço de uma vidinha que eu queria, mas que eu não consigo. E nesse momento, finjo a amizade, a voz delicada, uma falsa modernidade de to nem aí. E vou me dando de forma que não sou eu, e, na verdade, de forma nenhuma. E eu vou lá, cumprir a vidinha de alguém que deveria ser feliz e não é, de alguém normal. Porque a felicidade, a verdadeira, ficou num tempo que talvez eu não possa mais tocar.

Ele me prometeu que vai dançar comigo, que vai me fazer feliz, que vai me ensinar a gostar de futebol, a diferenciar direita e esquerda e eu prometi tentar ser boazinha. Eu até me acalmei um pouco e quase consegui imaginar uma vidinha normal, sem lembrar de nenhuma outra referência. Nenhuma referência que me lembre seu modo exato de viver quase me matando de felicidade sem fazer absolutamente nada e eu entregue num êxtase irreal.

E eu prometi tentar existir além daquilo que eu julgava a minha maior expressão de amor. E prometi ser mais carinhosa ao telefone, não desligar quase na sua cara, ser mais gentil e tecer um elogio por dia. Eu prometi tentar seguir o script, eu prometi. Eu prometi tentar não carregar nada mais no peito e viver uma vida inteira prometendo não sentir.

Eu sou boa de promessa, eu só não sei se sou boazinha. Eu aguento o tranco, eu já disse, eu desço do salto, eu grito seu nome, eu troco lâmpada, eu viro mulherzinha, eu posso até ser bem mais carinhosa. Mas aquela loucura de palavra inicida e não terminada me vem à cabeça e eu não consigo. Eu sei que vai acabar, que tá bem perto, mas o bem perto quase abre um precipício do sem fim. Um preicipício toda vez que ouço aquela voz. Eu não quero finjir, eu não quero nenhuma vidinha urgente, eu não quero prometer nada para ninguém além de você, mesmo que eu seja apenas a mulher que você sempre quis, mas não pode ter.

Eu quero voltar para o lugar de onde você fugiu e eu te perdi. Eu tenho o caminho, eu tenho as direções, mas preciso de um sinal. Talvez, esperando esse sinal, posso me libertar um pouco de finjir. Eu não quero bater na mesma tecla, tanto tempo, tanta falta. O problema é a outra mão, eu até queria querer essa mão, queria ela me pegando o pescoço, o cabelo, puxando, descendo, a barriga, a perna, entrando corpo afora. Mas meu corpo recusa essa outra mão, quase uma ânsia de vômito. Cadê o gole de vinho, talvez...